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Escolas em Belo Horizonte e a Pseudoinclusão

Estive fisicamente em 12 (doze)  das escolas mais conceituadas de Belo horizonte e conversei ao telefone com outras 3 (três). Ao todo contactei 15 (quinze) escolas.
A busca por uma escola para os filhos é uma tarefa árdua para qualquer família. Queremos sempre o melhor para nossos pequenos, e procuramos um lugar que os acolha com o carinho, respeito e dedicação.
Quando nossos filhos possuem um desenvolvimento atípico, essa preocupação é substancialmente maior, precisamos de uma escola genuinamente comprometida com o desenvolvimento infantil, seja típico ou atípico, uma escola que conheça a lei da inclusão e a cumpra, um lugar onde os profissionais respeitem o juramento que fizeram na colação de grau: “prometo, no exercício de minha profissão, enfrentar os desafios que a educação me propõe, dentro e fora da escola, com criatividade, perseverança e competência, buscando novos caminhos para o processo educacional…” (Trecho retirado do site da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG)
A minha experiência pessoal nessa busca, de encontrar uma escola com todos esses quesitos para o meu filho, na cidade de Belo horizonte – MG foi frustrante, decepcionante, revoltante, desesperadora. E vou compartilhar com vocês, tentando ser o mais imparcial possível.
A minha estratégia inicial foi ligar para as escolas selecionadas, perguntar se haviam vagas para a série e turno, correspondentes à  idade do meu filho. A resposta sendo afirmativa, eu agendava uma visita à escola.
Na grande maioria das “escolas conceituadas” a coordenadora era quem me recebia na reunião de apresentação da proposta pedagógica. Eu, educadamente, deixava a coordenadora expor a proposta, o funcionamento, falar empolgadamente sobre todas as maravilhas daquele lugar e de como meu filho seria bem recebido ali. Assim que elas terminavam o discurso (que até parecia o mesmo Script para todas), eu começava calmamente a dizer:
” Olha, eu realmente gostei da escola mas preciso saber, como é a questão de inclusão aqui ? Meu filho tem o diagnóstico de autismo e algumas adaptações são fundamentais para seu desenvolvimento”.
Parecia que eu tinha acabado de informar o falecimento de alguém próximo. O semblante que até então era empolgado e feliz, se transformava em apreensivo e  triste. Aí vinham os próximos discursos ensaiados, que também pareciam sair de uma cartilha de desculpas:
Discurso 01  (maior em número):
” Puxa, eu preciso verificar se realmente tenho vaga, penso que me enganei. Acho que as turmas desse período já estão completas, mas deixa o seu telefone, assim que eu tiver um retorno da secretaria entraremos em contato”.
Discurso 02 (segundo no ranking):
“Ah seu filho é autista? Infelizmente eu possuo um número limitado de alunos de inclusão por turma e para o ano que vem já tenho alunos de inclusão em todas as turmas dessa série desejada. A professora não consegue dar a atenção necessária se tiver mais um aluno de inclusão”
Discurso 03 (sem o menor conhecimento da lei):
” Pode trazer seu filho autista sim, faremos a matrícula dele mas preciso te deixar ciente que é apenas 1 professora na turma com 20 alunos, e ela não tem um conhecimento técnico para lidar com crianças autistas”
Discurso 04 (falando baixinho, quase uma confissão):
“Essa instituição não gosta muito de fazer matrículas de alunos de inclusão. É ruim para os números, joga a nota do Enem lá para baixo e ficamos mal no ranking das escolas de BH”
Discurso 05 (eu, já exausta, falava o diagnóstico de cara):
“Ixxi, não temos vaga! Nem para esse ano e nem para o ano que vem”
Só para esclarecer, as escolas não podem negar a vaga por causa do transtorno, mas podem negar por “superlotação”.
Se duas mães forem fazer a matrícula dos filhos, um deles é uma criança neurotípica (normal), a outra com o desenvolvimento atípico, a negação por “superlotação” deveria ser “NÃO” para ambas.
Das escolas que eu simpatizei mas “não tinham vaga”, esperei passar uns 10 dias e liguei novamente, como se fosse a primeira vez, perguntando se tinham vaga para o período correspondente à idade do Enzo. Adivinham????
TINHAM VAGA!!!!!
(Que bom que em 10 dias, as vagas brotam RS. Voltando à imparcialidade)
Pedi então uma reunião com a diretora geral de uma das escolas que mais gostei, e fui no dia marcado acompanhada de duas testemunhas. Só assim consegui fazer a matrícula do meu filho. Provavelmente ela conhecia um pouco mais da lei da inclusão e “liberou a vaga”.
Usou uma desculpa que as vagas estavam travadas para transferência interna entre alunos de outros núcleos, e só ela poderia liberar. Pediu desculpas e disse que naquela escola tinham outras crianças com autismo já matriculadas.
Pena que entre fazer a matrícula e fazer inclusão existe um abismo enorme (mas esse será assunto do próximo post).
O meu intuito inicial era colocar aqui o nome de cada escola visitada e o relato detalhado de como foi a visita. Mas prefiro acreditar, assim como não gosto que rotulem meu filho porque ele está numa crescente evolução, que essas escolas possam evoluir e se transformarem em verdadeiramente inclusivas, enxergando que enormes são os ganhos de assim serem. O aprendizado que recebem dos alunos de inclusão são tão grandes ou maiores que os ensinamentos à eles.
Ao invés de apontar as escolas, irei apontar aqui a LEI, na esperança de que os diretores, coordenadores e professores leiam e se conscientizem:
“…Parágrafo único.  Em casos de comprovada necessidade, a pessoa com transtorno do espectro autista incluída nas classes comuns de ensino regular, nos termos do inciso IV do art. 2o, terá direito a acompanhante especializado.
Art. 7o  O gestor escolar, ou autoridade competente, que recusar a matrícula de aluno com transtorno do espectro autista, ou qualquer outro tipo de deficiência, será punido com multa de 3 (três) a 20 (vinte) salários-mínimos.

§ 1o  Em caso de reincidência, apurada por processo administrativo, assegurado o contraditório e a ampla defesa, haverá a perda do cargo.

§ 2o  (VETADO).

Art. 8o  Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília,  27  de dezembro de 2012; 191o da Independência e 124o da República.

DILMA ROUSSEFF
José Henrique Paim Fernandes
Miriam Belchior”.

Me coloco à disposição para ir às escolas interessadas, palestrar gratuitamente para os profissionais, contar da minha experiência como mãe de uma criança com transtorno do espectro autista e quão transformador pode ser na vida dessas crianças uma escola genuinamente inclusiva.
Não adaptar atividades para crianças com autismo é o mesmo que dar, para um deficiente visual, um livro sem estar escrito em braile.
Que a lei seja cumprida, não por medo das multas e penas, mas por amor ao ser humano por trás do transtorno.

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5 comentários

  1. Como é doloroso e revoltante ver minha filha e meu neto passarem por tudo isso.Mas essa é só mais uma batalha que com certeza e com muita garra que ela sempre teve,vai vencer.Que Deus abra o coração dessas pessoas e assim o mundo vai ser bem melhor.Parabens minha filha por essa luta.Estamos sempre juntas.Deus te abençoe sempre.Te amo!

  2. Michele infelizmente essa é uma realidade dura, as escolas são estão interessadas em números, dinheiro, sucesso e isso se reflete no próprio aluno que tem uma formação pautada na competição e no ter e não no ser. A grande maioria é assim.

  3. Carina Bigonha Ruggio

    Entendo que estamos só no início do processo de inclusão! Trabalho com consultoria para inclusão escolar e temos como parceiros dias GRANDES redes de escolas em BH! Isso me dá esperanças de, um dia, termos uma inclusão100% eficiente! O processo é longo….exige uma mudança de paradigma, por isso não é fácil!

  4. Luciene Gontijo

    Michele, não desista!
    Também tenho esperança no cumprimento dessa lei bem como no amor e respeito ao próximo!
    Mas eu, listaria as escolas sim! Às vezes, o outro só funciona quando é exposto a situações que o denigrem, desconcertantes!
    Bjos de luz pra você e Enzo❣️

  5. Lane magalhaes

    Michelle querida,
    Passei por essa experiência há 13 anos atrás, como te entendo!
    O que de fato não entendo é que 13 anos não tenham sido suficientes para as “tão conceituadas” escolas se humanizarem.
    Que mundo é esse?
    Não desanime sua força, persistência e voz pode e vai mudar esse cenário!
    Bjs no coração

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